Viva Alenquer!
Já eternizada nas páginas do magistral romance “Verde Vagomundo” (1973), de Benedicto Monteiro, agora Alenquer reaparece novamente inteira, com seus ritmos e tradições, no CD “Viva Alenquer”, produzido pelo Benedicto Monteiro compositor.
Não deixa de ser um documento emocionante ouvir, na abertura do CD, a voz do próprio Benedicto Monteiro, dizendo: “Para gravar essas músicas fizemos um mutirão ou putirum, como dizem os alenquerenses. Gravamos num estúdio na casa alenquerense de Raimundo e Sara Leite. Os músicos, os cantores, compositores são alenquerenses. Favila teve as suas músicas gravadas por suas netas. João Tito, pelos seus filhos. E Atico Barile pelos seus sobrinhos, e gravou também as músicas de Benedicto Monteiro. Os jovens estão representados por Antônio Augusto, Roberto Mesquita, Flayury e Valente. Não podiam faltar também os hinos de Alenquer, do Aningal e do Internacional, que permanecem na memória do povo. Este putirum não poderia ter se realizado sem o apoio de Paulo Monteiro e da coordenação de José Silvestre. Na ficha técnica, estão os nomes de todos aqueles que colaboraram. Viva Alenquer!”
O CD traz 16 músicas. A primeira delas é o “Hino de Alenquer”, letra e música de Benedicto Monteiro. As outras são: “Alerta”, letra e música de Roberto Mesquita. “Ximanga Encantada”, letra e música de Favila Gentil. “Alenquer Maravilha”, letra e música de João Tito e Renato Maués. “Casa da Piedade”, letra e música de Favila Gentil. “Hino do Internacional”, letra e música de Benedicto Monteiro. “Doce Alegria”, letra e música de Atico Barile. “Estela”, letra e música de João Tito. “Largo da Matriz”, letra e música Benedicto Monteiro e João Tito. “Um Quartinho de Saudade”, letra e música de Antonio Augusto Simões. “Limoeiro”, letra e música de Benedicto Monteiro. “Marambiré”, letra e música de Ismaelino e Flayury Valente. “Pra Nunca Mais Meu Violão Chorar”, letra e música de Favila Gentil. “Hino do Aningal”, letra e música de Ismaelino e Flayury Valente. “Vela Branca”, letra e música de Benedicto Monteiro.
Doce como a flauta, é impossível ouvir “Viva Alenquer” sem se encher de melancolia, pois o CD nos transporta a um lugar que não mais existe e a um tempo que não volta mais, mas que, todavia, estará para sempre presente no coração dos homens. Estou falando do mágico mundo da poesia, do telúrico universo da Saudade.
“Na casa da Piedade tem/ uma porta e uma janela/ um viveiro com canário tem/ um papagaio e um sabiá/ um aquário com peixinhos na água doce/ e uma cascata que faz chuá/ Na Piedade pode quem quiser morar/ um contrato permanente/ a condição a combinar/ Vinte minutos, não é longe da cidade/ Quem quer morar na casa da Piedade?” (“Casa da Piedade”, Favila Gentil).
Ainda hoje cantado pelo povo de Alenquer, o “Hino do Internacional” foi composto por Benedicto Monteiro numa época em que pobre não entrava em festa de rico, contra o que se insurgiu o poeta, escrevendo: “Nosso clube não separa o rico, pobre ou doutor/ Nosso clube prestigia o homem trabalhador/ Nosso clube quer progresso e harmonia social/ Nosso clube é do povo/ É o Internacional”.
Quem morou ou mora numa pequena cidade não escapa da emoção ao ouvir os versos de “Largo da Matriz”: “Mora no largo da matriz o meu amor/ Lá eu deixei meu coração, minha amizade/ À sombra da mangueira toda em flor/ eu encontrei a minha felicidade/ No largo da matriz eu fui feliz/ meu pensamento vive lá vagando à toa”.
Ou: “Embaixo do limoeiro/ não quero que ninguém vá/ para não saber meu segredo/ meu amor, minha tristeza que ficou lá/ O limoeiro escondeu naquele dia/ o meu corpo que caía vagueando até o chão/ E a chuva em suas folhas escorrendo eram lágrimas vertendo pra molhar meu coração” (“Limoeiro”).
Por fim, “Vela Branca”, na voz de Marcelo Sirotheau, mostra toda a verve poética de Benedicto Monteiro, que, além de grande prosador, é também um dos melhores poetas do Pará. A letra dessa música é literatura de primeira grandeza; como poema, é capaz de sustentar-se sozinha: “Vela branca ou sarapintada,/ canoa chegada da banda de lá,/ conta tudo da tua viagem,/ da tua passagem pro lado de cá./ Canoa virou, deixou de virar/ canoa chegou, acabou de chegar./ Conta a história dos mares/ como são por lá, nesses lugares,/ nas baías, nas enseadas,/ que agasalham as canoas cansadas/ de tanto navegar./ Conta a história dos ventos/ que sopram como os pensamentos/ empurrando as velas/ fazem revoltas e procelas/ sem nunca recuar./ Essa é a canoa,/ essa é a canoa chegada do mar./ Conta a história dos rios/ por onde não passam nem navios/ e onde as canoas veleiras ficam manhãs,/ noites inteiras,/ a mercê das marés./ Mas o que as histórias não falam/ é dos ventos que se calam/ no escoar tão barrento das águas sem vento/ dos igarapés”.
“Viva Alenquer” pode ser adquirido pelo telefone: (0xx91)222-3066. |